quinta-feira, julho 05, 2007

terça-feira, maio 29, 2007

As palavras

Odeio o amor que tenho pelas palavras. E odeio-o tanto que chego a amá-lo também. É a suprema ironia que aquilo que mais me liberta seja também o que me amarra com mais força. Em cada palavra um sentido, dois se precisar de segurança, três para ter absoluta confiança. E que sentido faz ter sentidos, se tudo depende de uma palavra também, esperança.
Esperança é sonhar acordado, é ir além das palavras, esquecer o significado e agir, simplesmente agir sem palavras, nem sequer as de honra. As palavras certas serão apenas aquelas que faltam, essas sim as mais importantes que alguma vez serão ditas.
E aí, cada letra que já usei como carta para sustentar castelos de palavras em que habito, tão fortes na minha cabeça e tão frágeis na realidade, será apenas isso mesmo, uma letra, não uma metáfora, não um escudo, não uma ironia, nem sequer um gracejo. E será aí, defesas em baixo, venha o que vier, que direi sem quebrar o silêncio – Para ser eu próprio não preciso de palavras, preciso apenas de mim.

domingo, maio 20, 2007


quarta-feira, maio 02, 2007

Rio-me à beira do rio

Há algo no rio que puxa por mim. Algo nas formas que se recortam ao longo das margens e me fazem navegar sem sair do lugar. Algo familiar que me leva rumo ao desconhecido mesmo de olhos fechados, através de cheiros e sensações que me fazem lembrar de tudo o que já passei e me fazem sonhar com aquilo que há de vir.
Nunca procuro respostas junto do rio. Procuro antes o pôr do sol, pois por muito efémero que seja, durará mais do que qualquer resposta que o rio tenha para mim. Porque ele não existe para responder, existe apenas para reflectir. E, se no seu reflexo vejo apenas sombras, porque não procurar a luz do momento, o brilho da promessa que me dá o pôr do sol.
E, quando ele se tiver posto, quando nada mais restar que a penumbra e a suave palidez do luar, as sombras vão desaparecer fundidas na escuridão do rio e só então lhe volto as costas, sorrindo sem que mais ninguém saiba porquê.
Posso nunca querer encontrar respostas, mas não me importo de perder as sombras.

domingo, abril 22, 2007


segunda-feira, abril 09, 2007

Brilho obscuro

Não sei se sou borboleta ou luz. Sinto que giro e que tudo gira à minha volta, não caio, não me mexo, nada pára nem me deixam parar, como um carrossel em que um bilhete dura uma vida. O descontrolo mantém-me controlado e fixo o olhar no brilho que me ofusca, me seduz e me aquece, que me faz pensar em não pensar.
Não me preocupo, não paro e é giro que quanto mais giro, mais me sinto parado a olhar para o brilho que não se deixa apagar. Não o tento alcançar, porque o faria?, só me iria queimar, porque o brilho não foi feito para se agarrar, apenas para pôr um feitiço ao olhar.
Mas borboleta não serei e luz não sei, porque nunca me vi brilhar. Sorrio e continuo a olhar, porque o descontrolo tem tudo controlado e mesmo sem pensar tudo gira sem sair do lugar.
Não procuro conclusão, não vou deixar os olhos fechar, mas não procuro a razão do brilho, porque só no dia em que for luz é que o carrossel vai parar.

sexta-feira, março 30, 2007

segunda-feira, março 26, 2007

À sombra das palavras

Sou refém das palavras que crio. Palavras que crescem e se voltam contra mim, segundos sentidos que matam primeiros, dúvidas que nunca têm um ponto final, questões que ficam penduradas por três pontos.
E conforme as minhas mãos deslizam no teclado, moldando frases e palavras, surgem expectativas e emoções que se cruzam entre a minha mente e os meus olhos e as mão continuam rápidas e ágeis, sem sair do teclado, mas sinto outras, mais fortes, de volta do meu pescoço.
Não é preciso inspirar metáforas para respirar palavras, mas é possível asfixiar com elas. E assim não digo as palavras que importam, porque tenho medo de sufocar, mas crio belas teias para fugir delas, onde acabo por me enredar. Por isso, amo as palavras num momento, só para de seguida as odiar.
E entre vírgulas e pontos, exclamações e interrogações, hipérboles que me reduzem e alegorias que transcedem sei apenas que para me salvar não bastam palavras, mas só com palavras a mim podes chegar.
E no teu silêncio leio palavras, porque só com palavras sei lidar e espero um gesto mudo, um que não exija resposta, para eu o poder aceitar.

sábado, março 10, 2007

sexta-feira, março 09, 2007

O resto e paisagem

Eu sou a paisagem. Eu sou o segundo plano. Eu sou o cenário. Eu sou a calma que tem raiva nas veias. Eu sou o idílico por trás do real. Eu sou a recordação que faz parte do futuro. Eu sou intemporal, mas finito. Eu sou a força constante com fraquezas permanentes. Eu sou a bonança que dá beleza às tempestades. Eu sou a sombra onde se esconde a luz. Eu sou o silêncio que grita, o sorriso que chora, o beijo que doi, o choque que não se move.
Eu sou o lado certo do contrário.
Eu sou o resto.
Eu sou onde o princípio acaba.

quinta-feira, março 01, 2007

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Sorte trocada

Procuro uma moeda de troca. Algo que me valha quando perder o que me resta, um passaporte para onde não haja cara e coroa, onde não feche os olhos para não ver onde a moeda vai cair a seguir e não tenha que esperar para saber se posso sorrir.
Procuro uma moeda de troca, mas não a tenho na mão. Já a tive um dia, mas não o sabia, apostei que ela não existia sem saber que ao perder a aposta também a perdia.
Será que ela volta ou só tenho direito a uma moeda troca durante a vida? Aposta comigo a tua, porque a minha está para sempre perdida. Se ganhar a tua sorte fica nas minhas mãos, se perder faço meu o azar da tua vida.

terça-feira, fevereiro 20, 2007

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Um Zero

Fecha os olhos e estica as mãos. Não confies em mim, não acredites em mim, mas faz o que te digo. Para que vida seja um pouco de algo mais, é preciso que uns sejam zeros, para que outros sejam 1’s.

Não faz sentido, mas quem disse que era suposto fazer? Não penses de mais, guia-te pelas minhas palavras e talvez o teu coração se despiste para que possas sobreviver. Fecha os olhos estica as mãos, não me vejas chorar, sente apenas as lágrimas que correm suavemente pelo meio dos teus dedos. Em silêncio, correm mudas as gotas da tempestade que rebenta dentro de mim, porque tu és zero e eu sou um e assim estamos tão perto, sem chegar a lugar algum.

Viro as costas sem te ver sorrir, de olhos fechados pensas ter nas mãos um segredo incomum. Mas, a felicidade não chove dos sonhos, mas por momentos faz de mim zero e de ti um.

domingo, fevereiro 04, 2007

quarta-feira, janeiro 31, 2007

O toque

Da janela do quarto olho lá para fora. Olho na esperança de sentir. Sentir o teu toque nos meus ombros, de início suave, depois fazendo-me esquecer do que existe lá fora.
Mas, continuo a olhar, o toque não chega e tudo parece parado. Incapaz de me mover, vejo o dia passar a noite, o sol a acariciar a lua ao amanhecer e finalmente um toque que chega para me desentorpecer.
Não és tu, como poderias ser, é a realidade que me beija suavemente, dizendo-me que o que procuro cá dentro só irei encontrar lá fora. Sorrio, ainda com o gosto da realidade nos lábios e volto as costas à janela. E desço ao inferno para encontrar o caminho para o paraíso.

sábado, janeiro 27, 2007

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Vulgarmente especial

Vivo num bar, no teu bar. Um bar que não é na verdade teu, mas chamo-o assim porque és a razão de eu lá estar. Se fosses uma garrafa serias aquela, a especial, a que fascina por estar sempre fechada, por estar ali sempre à vista à distância de um sopro, mas sempre distante. Aquela que não é preciso saber como é a sua essência para desejar, mas ao mesmo tempo desejar conhecer a sua essência por puro prazer.

Mas se tu és uma garrafa eu sou um copo, um vulgar copo. Transparente, fácil de usar. Demasiado fácil. Sujeito às vontades de todos e tendo como sua uma única vontade, partilhar o teu sopro, a tua essência nem que seja por breves instantes. Acreditando que a sorte fará que o vulgar e o especial sejam por momentos um só, mesmo que depois nunca mais o voltem a ser. Porque mesmo que depois continue transparente e usado por todos, poderei partir em mil os fragmentos da minha existência vulgar, porque neles estará reflectido o que de mais especial há em ti.

domingo, janeiro 14, 2007

segunda-feira, janeiro 08, 2007

De que serve o paraíso?

Sempre que fecho os olhos, vejo a imagem desfocada do meu paraíso. Não sei porque lhe chamo meu, só se é dono de um sonho enquanto ele dura. Mas depois, quando abro os olhos vejo-te a ti. O caminho que percorro contigo não vai certamente dar ao paraíso, não sei sequer se vai dar a algum lado, mas quanto mais olho para ti, mais te quero ver quando tenho os olhos fechados.

Quem quer o paraíso, se não houver tentação? De que serve um sonho, se não houver uma realidade para a qual acordar? Que se lixem os sonhos se não puderes fazer parte deles

Quero dizer-te isto tudo, olhar-te nos olhos, fechar os meus e continuar a ver-te, é isso que eu quero. E para que isso aconteça, só me falta encontrar-te...

domingo, janeiro 07, 2007